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06-03-2008
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O tempo & a rosa
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Talvez eu tivesse querido plantar roseiras no meu jardim, mas o medo de cultivá-las nasceu dos espinhos que elas têm. Entre a beleza, a maciês das pétalas e do perfume das rosas, optei por ficar com medo de ferir-me nos seus espinhos. Daí, as plantações dos girassóis que existem no tapete da sala de minha casa. Escolhi-os por não terem espinhos e por girarem sempre em busca da luz. Claro é, porém, que não tenho o mesmo perfume que teria e nem a variedade de cores, mas tenho dezenas de flores grandes, amarelas, poderosas, e que também são visitadas por colibris de todas as cores e tamanhos. Guardando-os, tenho os leões de mármore que rugem no quintal. De repente, ouço passos, leves e suaves, farfalhar de asas: Sãos os papagaios e maritacas que saíram das cortinas e vieram para comer as sementes dos girassóis. Sentado num canto da sala, espreito tudo que acontece e se não acontece, imagino. Talvez, quem sabe, não fosse preciso usar a imaginação se eu tivesse plantado rosas, eis que, assim sendo, certamente, você estaria comigo, jardinando-as também para que crescessem bonitas, viçosas e cheirosas, de tal forma que atraíssem beija-flor azul, amarelo, vede, preto, estes construindo seus sedosos ninhos no pé de paina existente à beira-rio, ao pé de uma pedra que é beijada pelas águas do velho Rio Paraíba do Sul...
A água fria vinda do rio bate na pedra e respinga nos leões de mármore e estes rugem de frio, amedrontando a escrava que saíra da senzala estampada no painel pintado na parede externa da casa. Ouço o barulho de correntes que prendem os pés dos outros escravos que ficaram amarrados nos troncos da senzala. Um deles recita Castro Alves (Navio Negreiro); - “Ó Deus, em que estrela tu te escondes, se em vão grito o teu nome e não respondes”? O calor de 40º à sombra, feito nesse quente dezembro de 2005, quando nenhum vento sopra, nem o campista rio a cima, fez com que a sinhazinha que vive na toalha que cobre a mesa da sala de jantar dali saísse e rumasse para a rede estendida entre um pé de jenipapo e uma ingazeira, para continuar fazendo o seu tricô, um casaco para aquecê-la no inverno vindouro. Você sente calor? Não sei. Mas se sentisse, certamente estaria aqui na rede refrescando-se debaixo das árvores, sem medo dos índios coroados, puris, coropós e botocudos que sempre guerreiam pela orla do Paraíba, este correndo na tela dependurada na parede da sala, mesmo que Frei Tomás proibisse guerras. Os heróis da Aldeia da Pedra, pintados na parede da sala de leitura, onde apenas a luz do lampião a querosene ilumina, dela saem para irem ao Porto das Lavadeiras ouvirem a pregação de “Sá Dona” contra a escravidão e pela proclamação da República. No alpendre da casa, uma casa de paredes brancas e janelas e portas azuis, um gato e um cachorro travam uma brigam de vitória indefinida e o tapete onde eles moram rola e cai dentro da correnteza do Paraíba e Moleque Amaro e Colibri, que vivem no livro do Dr. Gamaliel Borges Pinheiro, que estava na biblioteca da casa, vindos da Fazenda da Água Preta, dele saem para salvá-los da morte por afogamento, devorando-os a seguir na ceia da madrugada regada a cachaça, esta fabricada no Engenho Santa Clara, de Marino Ornellas, quando os galos cantam para espantar os espíritos. Talvez se você tivesse vindo para ficar, tantas brigas e sofrimentos tivessem sido evitados. Mas, não, tudo ficou sem companhia, amor e palavras vestidas com roupas coloridas de alegrias.
Com a libertação dos escravos, com a queda da monarquia e a conseqüente proclamação da República e com os ares de liberdade que passaram a soprar pelo Brasil, principalmente pelas terras da Freguesia de São José de Leonissa, eu esperei que o novo tempo trouxesse-me você, eis que os índios não mais amedrontavam ninguém, o hospício tinha sido destruído e só restava o convento das Carmelitas ao lado da Igreja Matriz construída pelos índios. Mas foi só uma ilusão cavalgando no dorso do tempo, procurando uma ponte que atravessasse o Rio Paraíba, mas não havia ponte para tal. Será que terei que esperar até que o prefeito Alcebíades de Carvalho, em 1936, inaugure a ponte Ari Parreira? Não sei, não sou profeta, mas “tudo é possível do lado de cá do Equador”. Só não é possível tomá-la nos braços, beijar esses róseos lábios róseos, acariciar esse corpo moreno e sentir o perfume que exala de sua pele. Afinal, você só existe hoje na fotografia dependurada ao lado da minha cama e que os tiros da revolução de 30 acertaram de raspão. Talvez eu tenha sido afoito ao tentar conquista-la sem esperar o Tempo certo sem haver plantado as Rosas que você tanto queria. De qualquer modo, não posso dizer que sou infeliz eis que suas lembranças vagueiam pelos corredores da minha casa, ao lado dos girassóis, leões de mármore, colibris, escravos, senzalas, índios e tudo o mais que foi ou não contado pela história. Um dia, quem sabe, numa nova vida...
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21-02-2008
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O Senhor do Destino
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Há muitas luas passadas eu ouvi alguém dizer que “as mais lindas palavras de amor são ditas com o silêncio do olhar”. Admitamos que o autor de tal assertiva esteja correto, mas aí, cair-se-ia, possivelmente, numa armadilha fatal: O amor! E todos nós estamos cansados de saber que ele pode levar alguém à morte e/ou á loucura. Se isso acontecer, essa paixão, com alguém, uma dúvida vira tortura e leva a se perguntar ao silencioso vento que nada enxerga, mas que a tudo toca: “Quem vai pagar as flores, se por acaso eu morrer de amor?”. Ah! Vamos ouvir o canto do sabiá pousado na palmeira da orla do Rio Paraíba eis que, talvez, a resposta esteja no seu canto... “Talvez a madrugada pague, com o seu orvalho, quem sabe”, diz ele, o sabiá num canto qualquer da palmeira, com pretensão de desvendar os segredos do “Senhor do Destino”, o amor... Mas, que amor, que nada, continua dizendo o sabiá, “não vale à pena amar, se é possível ser livre e feliz” e para isso basta que não se olhe no fundo do olhar de alguém, alguém assim como você que sempre embriaga a alma da gente; que hipnotiza quereres; faz arrepiar todos os cabelos e coloca aquele friozinho friorento lá bem dentro do estômago fazendo-o correr também pela espinha. Quem tem medo do amor diz que não adianta levar a vida a sério se, afinal, ela é uma aventura da qual nunca saímos vivo. Contrariamente, outros dizem que se pode passar a vida em branco, sem amor, silenciosamente e estático, já que não importa o que se faça e nem aonde se vá, eis que o importante é, até, imaginar a silhueta de alguém nas alvas areias das praias desertas e chegar a ela para apreciar a beleza, mesmo porque “o longe é um lugar que não existe”. Qualquer um pode viajar sem sair do lugar: Basta imaginar. Mas é preciso saber que “o senhor do destino”, apenas permite o sonho, a divagação e, no máximo, quase sempre, uma hipotética volta ao passado. Nada, além disso...
Quase sempre todo mundo pensa que o tempo pode esperar por decisões e escolhas movidas pelo silêncio do olhar, como se existisse uma ampulheta de areia recarregável em cada mão e isso permitisse um retorno ao passado quando se chega á conclusão de que as palavras de amor já foram ditas de há muito no silêncio do olhar de alguém que ficou no passado remoto. Mas o tempo nunca perdoa e para se voltar a ele precisar-se-ia, dizem os poetas, de um túnel pelo qual fosse possível chegar a uma nova dimensão temporal para, com isso, reencontrar um retrato dependurado na parede da sala pintada de azul, e um corpo quente e trêmulo deitado no alvo lençol de linho. Mas o “senhor do destino”, nem sempre prefere o lençol de linho e pode, até, ter preferência por um colchão puro, sem qualquer ornamentação ou até mesmo por uma pura esteira. Na juventude, todo mundo pensa que é um ás ou um trunfo qualquer e que pode, a qualquer momento, decidir um jogo. Mas, que jogo? O do amor ou o das cartas? Se o jogo for do amor, certamente, o ás ou o trunfo tem que ser usado de imediato, sem deixar que o jogo seja interrompido, mesmo que por alguns minutos, ou postergado por dia outro. Se o jogo for o das cartas, o procedimento deve ser o mesmo. Mas é preciso não esquecer nunca que ninguém, pessoalmente, é um ás ou um trunfo pela vida inteira e que o destino é o senhor da vida e do baralho, embaralhando este com maestria e profissionalismo todas as cartas. De que adianta ser-se um ás, ou trunfo, se depois do jogo todas as cartas voltam juntas para a mesma caixa e se igualam sem privilégio?A triste realidade que se constata é a de que o valor de qualquer carta só dura enquanto o jogo durar! Depois, a insignificância...
Se a vida é um jogo, pode-se dizer, sem medo de errar, que o amor também o é. Todos os dois são como os bumerangues que vão e vêm, se arremessados. Mais vão do que vêm. Ir e vir, reencontrar ou não um amor que foi confessado com palavras ditas pelo silêncio do olhar, não depende de nós ou de ninguém, mas sim da linha que separa a sanidade da insanidade e ou da poesia que habita dentro de nós e que pode botar o sol na noite e a lua no dia. Ele pode, ainda, fazer a chuva, o arco-íris, o vento, a praia, as dunas, as flores, a brisa e até ressuscitar, mesmo que hipoteticamente, o amor, o senhor do destino. Quem é que jogou o ás ou o trunfo na ora certa para ganhar o jogo? Quem é que virou alvo para o ricocheteio do bumerangue e perdeu a ampulheta do tempo? Quem poderia ter sido feliz e não foi? Eu? Você? O Senhor do Destino tem garras fortes, poderosas, alcança todos os tempos e ninguém lhe foge...
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05-09-2007
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Questionamentos
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Eu não sei quem sou e muito menos sei quem eu fui antes de pisar no planeta Terra, se ermitão ou urbano, se letrado ou iletrado. Quem sabe? Também não sei donde vim, se de Capela ou da Atlântida. Apenas sei que sou um ser confuso e que não entende muito bem a razão do desamor, das guerras, dos ódios e que, às vezes, tem a sensação de que bate no peito uma saudade remota, sem era definida, mas que parece perdida em castelos medievais ou nos porões dos palácios faraônicos e até da Inconfidência Mineira.
Não, talvez essas reminiscências venham da Grécia milenar ou de algum navio pirata naufragado no oceano Pacífico... Nem tão pacífico assim, eis que tragou minha nau. Mas, afinal, donde vim? De que tempo? Com que vento, como semente por ele levada e germinada ou não na terra árida da vida? Conheço você de hoje ou de ontem? Que horizonte já ultrapassei e em que nave? Ou teria sido nas asas do bem-te-vi, do colibri? Que perfume é esse que chega assim, assim tão inebriante e domina meu olfato? É de você... Certamente que é, mas de que tempo vem ele, de que flor? E o poema que cai agora, misteriosamente, em minhas mãos, quem o escreveu? Você, eu? Em que época se deu a história? E com que tinta e com que caneta foi escrita? Ou seria com que pena?
Felizmente as letras escritas com tal tinta, embora velhas e desbotadas, ainda dão para serem lidas e entendidas, mas o mesmo não se dá, comparativamente, com as palavras soltas ao vento, que, às vezes, dormem ao relento ou se dispersam no ar, e que foram balbuciadas a ouvidos meus que não são de agora, mas que numa marcha-ré percorrem tempos afora, imemoriais... Não sei como explicar a impressão que tenho de já haver conhecido o seu sorriso e o brilho do seu olhar, como também não tenho como entender a afinidade que sinto com você.
Que cachoeira é essa que ronca o “roncador” do Paraíba, cujo som parece de uma canção de amor? Que lua cheia é essa submersa nas águas límpidas do Paraíba e que eu, o pescador, não consigo pescá-la com minha tarrafa? Que serra é essa, com formato de um elefante deitado, que vigia a cidade e espia a correnteza do rio que vai com destino ao mar? Por que será que vejo uma praia de ondas suaves a beijá-la, cheia de pegadas de passos delicados que prenunciam ser de mulher bonita e elegante... Nua? Que banco de rua é esse que fica deserto quanto à cidade entardece e a igreja badala o sino esperando a hora da prece? Na verdade, quem sou eu? Ou quem fui eu? Um nobre, um plebeu? Ma que importância tem isso? Se na vida, independentemente de posições sociais, somos todos iguais e com a mesma origem... De Capela, o planeta perdido, de outro sistema? Ah! As dúvidas? Quem não às tem?
Tem gente que mesmo após algum tempo, pouco ou muito, não aprende a diferença, àquela especial diferença, entre “dar a mão e acorrentar a alma”. E aí não se aprende que liberdade e prisão, embora antônimas, não têm hiatos, mas grilhões de fortes correntes a prendê-los e que tudo que depender dessa definição gramatical não passa de uma verdade relativa e não existe separadamente.
Só existe o ódio, porque existe o amor; o dia só reina soberano e incansável porque descansa à noite; que a existência do norte depende do sul; que o belo só existe em função da existência do feio... Ah! É preciso entender que a madrugada é sempre a ponte que liga a noite ao dia... Mas quem quer saber disso? Eu, você? Também é preciso entender que beijos não são contratos amparados como direito pessoal através de qualquer lei, a não ser a que emerge naturalmente e que vem de compromissos firmados em avatares, quando presentes significavam promessas e hoje estas são bem outras coisas, ou seja, “simples palavras molhadas de salivas na boca de alguém”, na definição de Mario Quintana, quase nunca cumpridas e que a amizade, via de regra, não vai além de um aperto de mão e de um sorriso falso com rótulo de verdadeiro para encobrir o interesse que veste roupa de bondade, quando, na verdade as garras da ferra - a falsa amizade - estão sempre afiadas e se alguém, eu ou você, estiver enganado pode até ser devorado ou muito machucado ao ponto de ser enterrado ou com feridas de difícil cicatrização.
A traição de um amigo doeria mais do que a punhalada traiçoeira de um inimigo? Diz-me, doeria? Ah! Quem disse que “amar não significa apoiar-se, e que a segurança nem sempre está na companhia que se tem”, já que ninguém conhece ninguém, ou quase, nesse mundo de rótulos, de estrábicos que, logicamente, por isso, vêem “imagens” distorcidas. Mesmo vivendo muito tempo, tem gente que não aprende que caminhando em estradas paralelas as pessoas não se encontram e que nada acontece por acaso, mas sim em função de compromissos regidos por leis cósmicas.
O grande e imperdoável “pecado” das pessoas é pensar que a juventude é eterna e que se pode desprezar tudo, inclusive o amor, momentaneamente, para retomá-lo quando se lhe aprouver, mas a ampulheta da vida perde a areia e também não há nenhum portal no tempo para permitir entrar e sair a qualquer momento. Ah! Esse Questionamento...
Por: Chico Marra
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